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Não é bom que o homem viva só - Gen. 2:18-24
Contextualizando, comentando o
casamento, a família
I - Midraxe-Hagadá
Leonard Boff em seu livro "A
águia e a galinha" nos apresenta uma técnica utilizada pelos antigos
mestres, rabinos e comentadores do texto bíblico sagrado, para melhor explicar
os motivos e mensagens anunciadas. Essa técnica chamava-se midraxe-hagadá, que
consistia na ampliação das histórias bíblicas, enfeitando-as com dados
verdadeiros, legendários ou fantásticos. O objetivo do midraxe-hagadá não
era negar ou modificar a história original, era sempre tirar lições
edificantes e ampliar o sentido do texto para a vida.
Para explicar a atração, a magia e o fascínio natural entre o homem e a
mulher, á luz da narrativa bíblica da criação do homem e da mulher,
elaborou-se o seguinte midraxe-hagadá:
Originalmente o ser humano era simultaneamente masculino e feminino. E ao mesmo
tempo varão e mulher. No mesmo e no único corpo, tinha rosto e aparelho
genital masculino na frente e feminino atrás. Por causa do pecado, diz o
midraxe-hagadá, Deus cortou esse ser ao meio. Assim se separaram o homem e a
mulher, cada um com seu respectivo corpo. Por isso o homem e a mulher vivem até
hoje separados.
Mas, por uma paixão inata, eles estão incansavelmente à procura de sua
respectiva cara metade. Sentem-se atraídos um pelo outro. Apaixonam-se
mutuamente. Enamoram-se. Amam-se e por fim casam. Quando se unem amorosamente,
fundem-se então um no outro. Tornam-se novamente uma só carne. E assim refazem
o projeto originário de Deus.
Esse midraxe-hagadá quer esclarecer a unidade plural do ser humano, masculino e
feminino. Dá as razões da separação que os atormenta. Explica a atração
que vigora entre eles. E fundamenta a vontade de se fundirem numa só realidade
através do amor. Esse amor pode ser tão forte que os faz abandonar pai e mãe
e fundar uma nova família.
II – Família e Deus
Família – Idéia de Deus
A primeira conclusão do texto
bíblico-base acima, re-explicado pela nossa midraxe-hagadá, é bastante
simples e eu diria cristalina: A família é uma concepção do coração de
Deus.
Foi Deus quem primeiro se apercebeu de que o homem não poderia viver
solitário. E criou-lhe uma companheira.
Na verdade não apenas se apercebeu, como o criou com uma índole gregária que
o impedia de estar bem só. Ao contrário de todas as demais obras da criação,
faltava ao homem criado por Deus algo que o complementasse. O próprio Deus que
vira que tudo o que criara "era bom", olha para sua criação maior, a
coroa da sua criação e diz: "Não é bom que o homem esteja só" –
Não é bom.
A própria Sociologia define o homem com um "ser eminentemente
social". Concluindo séculos mais com idéia original de Deus.
Família – Solução de Deus
O grande enigma nativo do homem, uma
inexplicável inquietação, um inesgotável desconforto, a despeito de toda a
beleza e exuberância da criação original de Deus, colocada por Deus ao seus
pés e a ele submissa, era incapaz de preencher-lhe o coração por completo.
Algo precisava ser feito e Deus fez. Inventou a família, criando a mulher para
ser companheira do homem. Família, solução de Deus para a solidão humana.
Família – Obra de Deus
Já dissemos que algo precisava ser
feito e Deus fez. Essa característica essencial da família na Bíblia é algo
fundamental.
A Bíblia nos fala de um Deus que não apenas projeta e apresenta uma solução
para a solidão humana. Ele cria, realiza com recursos próprios a família.
Deus fez enquanto o homem dormia profundamente. O sono profundo pode ser usado
também como metáfora para se circunscrever a família autêntica e verdadeira
ao terreno e domínio de Deus. "Se o Senhor não edificar a casa, em vão
trabalham os que a edificam" (Salmo 127:1).
III - O propósito de Deus na
constituição da família
Como já colocamos, a família é
idéia, solução e obra de Deus. Obra concebida e concretizados com propósitos
e objetivos definidos:
Prover
Companhia – Gen. 2:18, 20 e 24
O motivo principal da criação da
mulher, de onde a humanidade criada por Deus passa a se constituir família, foi
a solidão (Gen.2:18). O homem primeiro foi criado por Deus com uma dependência
inata de relacionamento, uma necessidade genética de comunicação e por isso
estava insatisfeito. Algo não estava bom. Faltava-lhe companhia e Deus lhe fez
uma companheira. Daí por que todos querem se casar um dia. Para terem uma
companhia. Para não ficarem sós. O problema nativo do coração humano é a
solidão. A falta de Deus, é claro, e a falta de um (a) companheiro (a).
Detalhe marcante nesse conceito de companhia é a igualdade: Deus fez uma
companheira que "estivesse à sua altura" ou "que lhe
corresponda", conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém. A mulher não
é menor e nem maior que o homem. É à sua altura. Não por acaso fora criada a
partir da costela do homem, ou do seu lado.
A palavra hebraica "zela" traduzida por costela, pode significar
"lado". Com certeza é uma metáfora para a igualdade entre os
componentes iniciais da família autenticamente bíblica: Não foi a mulher
tirada da cabeça do homem como para dominá-lo, nem de seus pés para ser subjugada
por ele, mas de seu "lado" para lhe ser igual e de perto de seu
coração para amá-la.
Prover companhia na missão –
Gen 2:18,20
Ao homem, a criação da mulher não
apenas serviu de resposta à solidão. A mulher foi criada para ser auxiliadora
ou adjutora, que quer dizer ajudadora. A missão do ser humano é missão do
homem e da mulher. Neste texto, fica claro que tudo quanto Deus havia
estabelecido como tarefa e como missão para o homem, agora, deveria ser feito
junto com a mulher.
A mulher é, portanto, companheira de jornada do homem, na sagrada e árdua
missão de dominar e sujeitar a criação de Deus. (Gen. 1:26-30) A partir de
então a mulher seria a auxiliadora, participativa em todas as tarefas do homem
no cumprimento de sua missão divina, o que só viria a ser interrompido pelo
pecado.
A posição da mulher como auxiliadora ou ajudadora, não tem conotação
valorativa e muito menos depreciativa. Ela é auxiliadora, por que o homem já
estava fazendo algo quando Deus a criou. (Gen.2:20). Os versos acima atribuem a
mulher à condição de igualdade na missão. Seria alguém idôneo, um ser
capacitado para participar na missão, à altura daquilo que poderia fazer o
homem.
A mulher é companhia que fortalece. Diz-se que "um fraco mais um fraco
não são dois fracos, mas um forte". Sós, homem e mulher estão sempre
divididos, enfraquecidos, fragilizados (Ecles. 4:9-12). Quando se juntam se
tornam fortes.
Prover complementaridade ao ser
humano – Gen. 2:23-24
A Bíblia na linguagem de hoje
traduz Gen. 2:18 da seguinte forma: "Não é bom que o homem viva sozinho.
Vou fazer para ele alguém que o ajude como se fosse a sua outra metade".
Vem daí dizermos "cara-metade" da pessoa que se dá bem no
relacionamento. Não existe sequer um bom ou boa profissional sem que a sua cara
metade, o marido ou a mulher colabore, contribua com a sua parte.
Cara-metade significa que sós o homem e a mulher estão incompletos,
insatisfeitos e em busca de sua outra parte. Iguais em alguns aspectos e
diferentes em muitos outros, especialmente em sua estrutura física e
psíquico-emocional, dentro do plano divino, homem e mulher se complementam.
Semelhanças, mas principalmente diferenças permitem ao casal o alcance do
ponto de equilíbrio que os torna "uma só carne" (v.24).
Rev. Luiz Pereira de Souza –
(Mensagem de Casamento/Valorização da Família) |